O gato liquefeito


Entre as costelas frágeis de tom esverdeado, rodeadas por carne putrefata e liquefeita, nascia uma flor. Ainda não era possível ver as pétalas. E pra quem não entende de flores, como eu não entendia, nem mesmo o broto era reconhecível. As frágeis folhas esverdeadas traziam a delicadeza necessária para o corpo em decomposição. Era como o pé de feijão no algodão: frágil e pertencia a alguém. Nesse caso, pertencia ao corpo do gato que se desfazia.

Imediatamente, coloquei meu nariz afundado na junta entre o braço e o antebraço. Um reflexo instintivo me fez semicerrar os olhos como se o cheiro, também, fosse invadi-los. Olhei por alguns instantes aquela cena. Admirei a arte da natureza, em transformar um gato numa flor. Meus olhos sobre o corpo permitiram os instantes se liquefazerem, tal como a carne do felino, e deixarem a sensação de tempo similar ao de observar uma flor desabrochando. Um silêncio interno se estabeleceu. Comecei a me afastar, precisava voltar para casa, que era onde eu trabalhava. 

Comecei a sair da imersão física e psicológica que havia mergulhado. Às vezes, eu entrava nesse estado, era como se outra parte de mim me observasse existindo, como uma águia observando do alto do céu os movimentos de sua presa, a presa agia em sua natureza, não tinha capacidade de saber que estava sob os olhos atentos de um algoz.

Caminhava a passos largos pela grama verde da clareira não tão distante da cidade, pois mesmo rodeado pelas arvores, eu conseguia ouvir ao longe a avenida sussurrando o movimento urbano. O sol brilhava forte, mas eu estava de jaqueta. Os passos foram acelerando, enquanto eu mantinha meu nariz afundado pelo abraço bruto que o protegera do mau cheiro. Até chegar em uma zona confortável, onde o fedor já não me acompanhava. Deixei o braço cair pela lateral do meu corpo, revelando as lagrimas do choro convulsivo. Os passos largos foram substituídos por passos lentos, coloquei as mãos sobre os cabelos os ajeitando para trás, ao mesmo tempo que direcionava o rosto para cima, como se quisesse prender as lágrimas nos olhos... a coleira com a placa redonda gravada Albedo, não deixou dúvida! Finalmente, eu encontrara meu gato.

Eu vinha de uma sucessão de fatos ruins. Um dia acordei, olhei em volta e vi que a minha vida parecia vazia. Não era sobre amor romântico. Era sobre mim. Mas não a incapacidade de me encontrar em paz por dentro. E, sim, a incapacidade de entender as pessoas ao meu redor. Havia terminado inúmeros relacionamentos românticos consecutivamente. A cada vez que eu me sentava, à mesa, para conversar, via os olhos vazios das pessoas com quem me relacionava. Via esses olhos buscarem um sentido para si mesmas. E percebia, em algum momento da nossa relação, que a parte que amava de cada uma daquelas pessoas, era eu mesmo! Isso pode soar bonito, mas não é. Eu amava uma projeção inconsciente e inconsistente que eu criara para satisfazer a minha própria noção de realidade. Os olhos dessas pessoas não eram vazios. Eu era vazio! Eu enxergava o vazio abissal do fundo dos seus olhos, porque elas já não construíam minha personalidade como eu queria. E o que mexia comigo, era o fato de perceber, que os vazios que eu via e eram meus, contraditoriamente, também eram delas. Porque ao primeiro sinal da minha mudança, a minha encenação já não complementava a encenação alheia. E, portanto, como eu não sabia do que agora sei, chegava ao fim.

Eu sofria com o fim, mas não pela falta de cada uma dessas pessoas. Eu sofria com o vazio que ficava naquilo que eu havia definido que eu seria: O namorado de alguém.

Quando estava quase saindo do bosque, com esses pensamentos, refletindo sobre a vida que levara até ali, vi a alguns metros um vendedor de picolé. Manchado pela luz do sol que vazava entre as folhas da árvore frondosa, sob a qual ele estava. O boné branco, um jaleco branco, tal como uma alma quarada num quintal de alguém. Debaixo do sol quente, já perto das ruas da cidade, o calor até poderia ser responsável por uma miragem. O homem parecia um anjo, a roupa branca reluzia o sol e o deixava disforme. E como um anjo, ele ofereceu compaixão:

- Picolé, meu nobre? – Eu não queria, mas senti que soaria estranho. Eu pensava que ser alguém que se nega a um pedido indireto e gentil, não fazia parte de quem eu era. Por isso encenei:

- Claro que sim! Qual o nome do senhor?

- Michel... – Ele abriu o carrinho de picolé, a fumaça gelada flutuava, no entrono da abertura, e causava uma sensação de paz e frescor. Então o anjo do gelo continuou – Três por dez. Vamos aproveitar?

- Poxa, Michel. Hoje, ficarei te devendo essa, vou querer só um mesmo... – Depois de tantos relacionamentos terminados pela minha incapacidade de entender a complexidade humana, eu não tinha para quem levar.

- Na próxima, o senhor leva. – O homem sorriu com dentes brancos. Sorriso misericordioso. Era um anjo, mesmo que tenha precisado receber pelo picolé. Talvez, fosse tempo de trocar o óleo das asas.

Segui caminhando pelo restante da pequena estrada de chão batido, que me levaria em direção à agitação escandalosa da cidade. Nessa caminhada, as lagrimas por Albedo já haviam evaporado, mesmo assim, a dor seguia no fundo do peito. Eu mordi meu primeiro pedaço de picolé, era de coco, o picolé reluzia com seu branco úmido sob o sol radiante. E me lembrei de quando adotei Albedo.

Por muito tempo eu fui “o filho que deu errado”, mesmo sendo o único com formação superior. De um seio familiar rigoroso, não nasci só em carne, eles deram a luz a um ego esfarelado. A rigidez me deixou confuso com o caminho. Então, ao longo da primeira fase adulta, optei por tentar ser as coisas: fui o universitário descolado; o baladeiro; o divertido; o engraçado; só não fui eu mesmo.

Minha graduação em T.I. não era o que eu queria, pra ser sincero, nunca soube o que eu queria. Talvez, se não nascesse subjugado a rigidez familiar, teria descoberto ao longo da vida que queria mesmo era fazer T.I. Mas nunca saberemos e, agora, não saber me faz bem. 

Não viajei para os lugares que desejei por um tempo. As viagens eram sempre por roteiro de tendência da classe média. Cada viagem feita era no intuito de construir uma personalidade convergente com aquilo que eu, passivamente, fora aceitando ao longo da vida. Não vou dizer que não me diverti. Entretanto, muitas coisas que pretendiam ser memoráveis, soam como intervalos longos até eu me encontrar. Uma parte fria da minha história, congelada num lugar onde se perdeu o seu sentido, um lugar que acolheria o picolé de coco, não só pelo frio interno que ambos provocam. E, sim, porque pela lógica, certamente, seria esquecido na linha da minha história...

Então, aos 32 anos, eu morava há quilômetros de distância da cidade da minha família. Eu não precisava. Era um trabalhador de home office. Por outro lado, eu precisava, sim. Era um trabalhador de mim mesmo! Dessa forma, precisei amá-los à distância. Com segurança! Também, já não me relacionava, romanticamente, com ninguém. Já havia mais de ano! Estava, para quem me via de fora, estéril. Enquanto pra aquela águia que me observava de dentro, eu começava a brotar, essa águia era o meu algodão, ou talvez a criança que me semeara. Ela era o mistério, ou talvez, o nosso amor o fosse...

Eu vivia sozinho nessa metrópole. Eu achava que sozinho. Na verdade, vivia com essa águia de dentro, que me observava com delicadeza, como quando a gente observa uma flor indecifrável nascendo entre as costelas de um gato putrefato: uma observação gentil e misericordiosa, que enxerga beleza em meio ao mau cheiro.

Aos 32, saí de casa para ir a esse bosque de caminho frondoso. Estava de folga e precisava ter contato com a natureza. Era uma vontade imensa dentro do peito de sentir o cheiro úmido das árvores num dia frio. Tal como se a tal águia me convidasse, ou melhor, como se me conduzisse ao passeio. 

O caminho frondoso desse lugar, sempre levava à clareira. O frio denso tomava toda a metrópole e, portanto, criava orvalhos delicados no verde da mata resistente. Eu respirava fundo, não pelo ar em si, mas pela umidade gélida que aquele dia tinha. Numa das respirações profundas, num reflexo inconsciente, olhei para baixo e uma pequena caixa de sapato estava aos pés de uma imensa árvore. Forrada ao fundo, com tecidos velhos, e sobre os tecidos dormia, profundamente, a delicada criatura branca. Com aparência de ter apenas um mês, lá estava ele, Albedo, ainda sem ser batizado, dormia sozinho aninhado pelos tecidos velhos. Movimentava a boca, intermitentemente, como se buscasse as mamas de sua mãe recheadas de leite. Tomei a caixa em minhas mãos e aproximei do meu rosto a criatura, abençoada pela beleza natural com a qual viera. Foi quando pude ouvir a respiração profunda de quem se sente acolhido pelo amor. No frio daquela manhã, fechei a caixa e a levei comigo. A inocência selvagem de um filhote o deixava vulnerável, Albedo sequer abriu os olhos! Foi em seu sono profundo e inocente dentro da caixinha aconchegante. Carregado por um homem, até então, solitário...

Indo pra casa, comprei tudo que era necessário para os primeiros dias com Albedo. Lá, assim que despertou, olhou para o meu rosto enquanto bocejava. Não miou! Nossos olhos se fixaram num silêncio sagrado. Era a beleza de um amor puro eclodindo, uma simbiose perfeita!

Foram os melhores dez anos da minha vida. Com Albedo, aprendi que cuidar, também, passa por colocar aquilo que se ama a prova, para que possa depois viver em maior plenitude. Aprendi isso, quando o levei para a castração e depois cuidei dele no pós-operatório, tal como a criança que semeia o feijão no algodão. Albedo me ensinou a priorizar as relações mesmo que, aparentemente, elas não tenham moeda de troca palpável. Passei a ir cada vez menos ver minha família, porque não queria deixa-lo só, ou com uma pessoa desconhecida. Eu trabalhava com Albedo deitado sobre meu braço. Dormia dividindo travesseiro com Albedo. Tomava meu café com ele.

Eu vivia em uma casa confortável. Um quintal grande, com um bom espaço verde. Deixava Albedo livre nessa área. E o observava de longe, da varanda. Não havia medo da sua fuga, porque os muros tinham instalações de profissionais com rolos anti-fuga de gatos. Passei a observar Albedo, tal como a águia interna me observava. Foram anos de falsa solidão!

Até que Albedo desenvolveu insuficiência renal. Passei por um longo período de autoflagelo, mesmo com o veterinário esclarecendo que os bons cuidados não influenciavam nessa doença, pois era muito comum em gatos com o avançar da idade. Ele foi piorando rapidamente. O caso de Albedo era muito sério. Embora, eu ainda tivesse uma pequena esperança. Entretanto, uma descoberta me aconteceu.

Albedo estivera por todos esses anos ao meu lado, pelo prazer da minha companhia. Pois mesmo com tudo cercado, o meu branco conseguiu escapar. Ainda que nunca soubera como! Passei a deixar cartazes de procura oferecendo resgate. Fiz uma rede de comunicação com o veterinário, as pessoas da padaria que eu frequentava, as pessoas da academia, da barbearia... semanas se passaram, até que um café, extremamente doce, que eu tomava, desceu amargo pela garganta, quando vi a moça do caixa da padaria chegar para o trabalho e entrar bufando de cansaço.

- Eu vi! Eu vi! – Ela gritava, parou a minha frente e prosseguiu – O senhor não vai gostar da notícia, mas eu vi... – A moça começou a gaguejar – Eu atravesso o bosque, diariamente, pra vir trabalhar, mas, hoje, tomei um caminho diferente, lá dentro, pois queria caminhar mais e pensar na vida. E encontrei seu gato...

- Onde? Como ele tá? – Gritei com um sorriso, mesmo que já não houvesse esperança real. Entretanto, enquanto virava o café, ouvi a resposta.

- Ele já esta em putrefação avançada, numa imensa árvore que fica na região da clareira.

Ela tentou me acalmar. O rapaz que servia, também tentou. Eles eram de alguma forma meus amigos desde que cheguei à metrópole. Saí da padaria com a vista um pouco desfocada, o sol raiava forte e mesmo assim eu usava jaqueta jeans. Caminhei inconsciente em direção ao bosque. Os meus amigos da padaria me pediram pra deixar isso de lado. Mas eu precisava de um fim pra essa história com a nobre criatura branca, que mudara minha vida. Eu sentia a necessidade de vê-lo sem vida, para compreender melhor a sua partida. Queria enterrá-lo!

Foi quando vi, as folhas delicadas surgirem em meio as costelas do corpo de Albedo. Os pelos brancos flutuando na poça gelatinosa de carne putrefata. O sol quente quase efervescendo a pasta liquefeita tomada por vermes. O brilho reluzente da placa circular, com o seu nome, refletindo o sol com violência. Tudo sob a mesma árvore frondosa onde o encontrei. As cenas da pequena criatura vivendo a glória da inocência selvagem de um sono profundo, como um flash, surgiu em minha mente. Cada sorriso que dei se uniu numa profusão de felicidade que nunca havia sentido antes. Foi quando veio o choro. Um choro convulsivo com a cara afundada numa jaqueta jeans. Um choro que misturava a alegria da lembrança e a dor severa do fim. A águia que observava, já sabia o que eu estava prestes a reconhecer... já não havia a necessidade de enterrá-lo, quando a natureza já fizera um túmulo perfeito: a clareira. E entregara ao meu Albedo a flor perfeita, aquela que nascia no seu peito. Não importava a forma destruída, as vísceras expostas, os pelos sem brilho... aquela era uma cena linda do fim, mesmo que doesse. Havia a beleza oculta na transformação. Seu corpo nutria a flor e a árvore, que um dia o abrigou sob si. E no meu peito, Albedo se fazia! Cada sensação e sentimento ao seu lado, criara em mim um homem diferente de quando o conheci, há dez anos.

Albedo no peito, Michel brilhando ao sol, um picolé de coco reluzindo e o fim da pequena estrada do bosque já revelava o movimento da cidade. O calor insuportável parecia piorar sob a jaqueta jeans, mas o picolé branco não deixava em dúvida que o dia estava quente, quando começou a derreter mais rápido do que eu podia consumi-lo. Já na calçada da avenida, em frente a entrada do bosque, parei para tomar o picolé que escorria, na intenção de evitar me sujar por inteiro. Ergui o palito para o alto e com isso, também a cabeça, pretendia tomar o doce gelado que se liquefazia, o sol radiante me forçou a fechar os olhos abruptamente. E num silêncio interno, em meio a um grito externo de alguém ao meu redor, meu corpo alcançou o chão. Com o rosto colado ao concreto, eu ouvia, ao longe, os gritos das pessoas. Havia o som baixo e de um rádio com interferência, tocando “Escrito nas Estrelas”, além do som de uma roda de carro girando sem tração. Mas não tinha dor!

- Meu deus! – Michel deixou seu carrinho de picolé tombar no chão. Sua forma imprecisa, pela prevalência de branco em seu visual que refletia o brilho do sol. O homem vinha em minha direção com as mãos na cabeça – Ele tava na calçada! Como isso foi acontecer, meu Deus?!

- Minha Nossa Senhora do Céu! – Era a voz de uma senhora já envelhecida – Ave Maria! Alguém liga pra ambulância.

Os gritos e interjeições foram ficando cada vez mais longe. A intermitência das piscadas, cada vez mais lentas e longas. Michel se abaixou perto de mim, eu só conseguia ouvir sons sem sentido. E cada vez mais baixo. Entretanto, as mãos brutas do homem que chorava por um desconhecido, pousou com delicadeza sobre a minha face. Como quando uma criança toca a folha delicada de um pequeno broto de feijão semeado no algodão. E onde já não havia dor, houve consolo!

Da porta do bosque, eu via as pessoas agora mexerem no corpo. Um corpo frágil. Um corpo que há pouco era meu. Das costelas do corpo, um carro, parcialmente, erguido surgia. Perto da mão direita o picolé terminava de se desfazer, formando uma poça branca que reluzia o sol. Desconhecidos choravam a minha morte! Não tive vontade de ver minha família em outra cidade. Não pensei em chamar por ajuda. Olhei pro bosque e entrei.

Os pelos cintilantes de novo. E a mesma expressão de fofura, quando me via. As patas charmosas sustentando o corpo gordo. O miado inconfundível da sua personalidade doce e sociável. Não tinha dúvidas. Estava morto e num reencontro com Albedo. 

E com certo constrangimento, confesso que não consigo mensurar o tempo que fiquei naquele bosque, passeando pelo seu labirinto de árvores, confundindo minha compreensão de onde era a entrada e onde era a saída. Embora em profundo sentimento com Albedo. Relembrando nossos momentos juntos. Cada pessoa com quem me relacionei e que se sentiu cativada por ele também...

Até que percebi: Albedo era só um momento. Albedo era só uma extensão do que eu fui. Pois eu também era só um momento. A águia que me observava , essa sim, era o que sou. Foi quando as cortinas se fecharam, a encenação acabou! Era liberdade! Um Mistério. Era amor.

Albedo aceitou o sono profundo, quando abandonado filhote. Numa inocência selvagem! E aceitou o fim de peito aberto. Quando fugiu para morrer na natureza em sua solitude. Peito tão aberto que brotou uma flor. E diferente do que você possa pensar, o carro sobre o meu corpo foi só a primeira morte. Estou nessas linhas registrando o meu fim e, paradoxalmente, apagando aquela versão. Albedo seguiu em meu peito e eu no peito da águia, que me observava amá-lo sem interesse. Tal como uma mãe observa sua criança de olhos reluzentes vigiar o feijão brotando no algodão...


- D'AUMON

Viagem no Tempo

"Eu já olhava em direção a lâmpada, faltava só acender a luz. Não fosse essa versão antiga ter decidido olhar pra cima. Hoje, eu não veria o céu com os mesmos olhos que vejo agora."



Memória Pirata

Clique na imagem para ter acesso a versão Audiobook



Todos os dias, depois do almoço até a hora do café da tarde, Dona Madalena contava a mesma história para Seu Rodrigo. O casal se sentava na varanda, que dava para um lindo jardim extremamente florido e muito bem cuidado, com borboletas, que pareciam permanentes naquele cenário, e enquanto Seu Rodrigo balançava na cadeira, Dona Madalena mexia nos fios de cabelos brancos que ainda insistiam em permanecer em sua cabeça. Mastigava a saliva e começava:

- É, Rodrigo, a gente viveu uma linda história, você não acha? – Ele a olhava todos os dias com o mesmo olhar de incerteza, com a mesma expressão blasé, quase como se não a enxergasse tão completa, como se visse uma desconhecida. – Além das nossas aventuras sexuais, da gravidez antecipada, daquela paixão de espírito adolescente que vivíamos, você e eu vivemos uma história de amor de verdade... Lembra como você cuidou de mim quando quase morri de pneumonia? – Madalena olhava para as borboletas do jardim num silêncio quase constrangedor, como se quisesse ter a força da juventude pra dançar entre as flores enquanto Seu Rodrigo a observasse. E Seu Rodrigo quase se perpetuava no silêncio, que pra ele era confortável. – Além disso, você lembra o quanto você se saiu bem na sua vida? Lembra do seu primeiro livro?
- Livro, que livro? – Finalmente se pronunciou o velho.
- Ora, por favor, você sempre amou escrever – Seu Rodrigo pigarreou, olhou pro lado e respondeu.
- É verdade! Escrever foi a minha maior paixão nessa vida. – Seus olhos dessa vez brilharam.
-Sim, vendeu mais de cinquenta mil exemplares. Você foi convidado por diversos meios de comunicação para escrever textos... Não me esqueço da festa de aposentadoria que te fizeram. Mas, a coisa mais linda que fica na minha memória é... – Ela se levantou como se estivesse animada, pois, com a idade que tinha nunca se sabia quando estava animada ou ofegante, depois foi em direção a parte de dentro da casa enquanto prosseguiu dizendo – Espere um momento, vou pegar uma coisa. – Voltou no mesmo ânimo, aquele que num da pra saber se é animação ou fadiga, por conta da idade. Ergueu um troféu no formato de livro e disse: - Olha, o dia que você ganhou isso não sai mais da minha memória, o prêmio de melhor livro. – Dona Madalena aproximou-o de Seu Rodrigo e o mostrou bem de perto, passando o indicador rapidamente sobre o nome gravado no troféu: Rodrigo Rabelo Reno Roma do Rego. Seu Rodrigo encheu os olhos d’água e olhou para o lado como se engolisse o choro e engoliu, nenhuma lágrima escorreu, ficaram nos olhos, parecia que era brilho da catarata, mas era emoção oprimida. Então, depois de respirar fundo ele disse:
- Como a vida passa rápido, Madalena! Nem consigo sentir mais a emoção daquele momento, sinto apenas algo parecido com orgulho.
- E isso já não é o bastante?
- Claro que é, deixei o meu nome, ao menos tenho um legado nessa terra! – Dona Madalena evitou tocá-lo.
- Vamos, Rodrigo, hora do café! Acho que ainda tem bolo de cenoura.
Rodrigo se levantou com dificuldade e entrou para o interior da casa.
Dona Madalena cruzou os braços, ouviu os pássaros e foi abordada por uma moça linda, que vestia branco:
- Acho linda a forma com que trata o Seu Rodrigo, Dona Madalena. Mas, num sei se é bom pra ele o que senhora faz todos os dias.
- Ele é meu amigo desde o berço - Dona Madalena pausou por um instante, respirou fundo e prosseguiu - num casou, num teve filhos. Xará do meu falecido marido, mas nunca teve a mesma sorte, coitado. Passou toda uma vida embriagado pelas ruas do Rio, pedindo até esmola, e frustrado por não se consagrar como escritor... aliás, por nem ter lançado um livro. Merece agora, que não se lembra de nada, conhecer uma história nova e boa de sua vida, ter uma memória que valha a pena ser revivida... - Dona Madalena se despediu e sua silhueta morreu no breu do interior da casa, onde foi desfrutar do bolo de cenoura.
A mocinha, ainda inspirada e um pouco confuso, riu com vontade de chorar e pensou: - Ai, quando eu ficar velha não quero usar roupas floridas como as da Dona Madalena. - A tentativa de intervenção da moça de branco não importava. Importava mesmo era que, pelo resto do dia, o velho se colocaria a escrever coisas que provavelmente jamais seriam publicadas. Enquanto se lembrava do quanto fora feliz...

D'AUMON

A criança, o moço e o ancião

 

O tempo passa, entretanto só porque o marcamos. Pois quando olhamos pra dentro, com atenção e sem medo de mirar o abismo, encontramos a criança, o moço e o ancião em volta da mesma fogueira, todos acrescentando lenha a ela ao mesmo tempo, não no nosso tempo.

Cabe a nós administrarmos uma conversa franca entre eles, com a qual todos ganham, mesmo que precisem ceder... a criança o amor negado; o moço o perdão; o ancião a paz. Seja parte do problema: a dissolução!

Espaço Zero

 


Tbt: o ano era 2013. Há dez anos, eu estava tentando...

 Essa foto poderia ser motivo de constrangimento, eu poderia reproduzir falas de padrões humanos muito repetidas, inclusive por escritores memorialistas, tais como "eu assassinava a moda nessa época"; "quanta inocência existia nele"; "esse cabelo ridículo" etc.

Mas como amante do contrassenso o que tenho a dizer é: como ele era admirável! Estava usando roupas e estilo muito comuns ao seu período. E essa foto de divulgação foi genial pro tempo e lugar em que ele estava. Isso, porque era 2013 e ele tinha um blog de textos AUTORAIS e experimentais com um engajamento monstro. E invés de se acostumar com a situação, viu a oportunidade de melhorar: fez fotos profissionais, investiu tempo e aprendeu a criar layouts com noções em HTML... levou o projeto Espaço Zero pra outro nível...

O engajamento aumentou muito, foi parar em coluna, ganhou 3 prêmios por 3 anos consecutivos... Até frase viral tem. De vez em quando ainda vejo um desconhecido compartilhando. Kkkkk

Não me orgulho tanto da frase, mas gosto dela. Há um quê de sagrado. Ela é a resposta antes da pergunta, como tantas outras que tive. E como tantas outras respostas que estou dando pra perguntas que ainda serão feitas...

Enfim, o Espaço Zero foi desativado em 2017, encerrando um ciclo glorioso desse artista. Mas guardo essa etapa da minha vida com carinho, amor e sabendo que está tatuada no Éter por toda a eternidade.

Foi preciso deixar pra trás essa fase, porque, QUE BOM, a gente muda. E quando a gente muda, o mundo a nossa volta implora por mudança, cada detalhe do que está em torno de nós é uma extensão do nosso ego personalizando a realidade e a maneira como queremos ser vistos. O Hugo, o garoto da foto, teve uma vida linda. Dançou no fogo sem saber, mas fez um espetáculo glamouroso. Entretanto, seu tempo chegou ao fim, foi velado, cremado e estará para sempre em nossos corações. E com ele e através dele nasceu uma nova pessoa, que propõe coisas diferentes e de maneiras diferentes...

Fica de olho! Ou você vai perder a melhor fase, a emersão... 😉

Uma Ilha



Arte: D'AUMON

Cada vez mais ele se sente uma ilha flutuante, não de areia, um monstro marítimo solitário boiando com seu ecossistema completo e saudável e olhando pro fundo profundo. Não enxergando os peixes, nem se aproximando de uma costa qualquer, ele bóia sem rumo num redemoinho gigante que devido a sua pequenez comparável, ele nem sabe que existe!


O Monstro na Árvore de Natal

 


As luzes cintilavam. Ainda assim, os duendes coloridos que estavam pendurados entre bolas e laços na pequena árvore de Natal, a qual estava no canto da sala do apartamento metropolitano, se vangloriavam de serem mais aprazíveis aos olhos do que a pequena miniatura de zumbi, essa que ficou presa no pilar de plástico das folhas artificiais. Isso desde o último ano, quando as quinquilharias de festas se misturaram no fundo do armário escuro.

Os risos sarcásticos ou olhares julgadores denunciavam a presença alienígena no recinto:

"Esse tom de verde na pele putrefata, não é o correto!"  - Soltou com tom de deboche um dos duendes de pele verde, mas um verde que comunicava esperança, acolhimento... era elegante! Natalino!

"Sim! Qualquer pessoa com senso de arte sabe que o verde no tom errado lembra morte" – Complementou o amigo com a pele verde refletindo as luzes de Natal que tomavam a sala de estar.

Ao fundo, gargalhadas estrondosas e estridentes de duendes iluminados compunham o tom do diálogo...

"As luzes são fascinantes..." – Até que soou a voz rouca, sombria e com tom de dor, vinha de perto da base de plástico. Continuou - "...na meia luz e piscando, até que disfarçou o tom triste do verde musgo da minha pele... estou quase me passando por um de vocês"

Uma oclusão de gargalhadas de duendes se manifestou por toda a sala. Os anjos de Natal pendurados na janela se viraram assustados pra tentar entender a situação, mesmo que tenha sido em vão.

Até que um duende despencou do alto da árvore. As gargalhadas cessaram instantaneamente! Todos os outros se contorceram na tentativa de compreender o que havia acontecido. Apenas alguns olhares dos curiosos alcançaram o duende que quicou sobre a mesa de vidro e rolou até a sua beirada, ainda zonzo com a queda, não teve forças pra pedir ajuda. Antes mesmo que começassem a especular, uma voz rouca e forte ecoou por toda a sala:

"Se mais algum de vocês rirem, o mesmo acontecerá... mesmo que seja um a um... todos irão!"

O silêncio sepulcral, tal como num funeral era acompanhado de fungadas de narizes chorões. O último duende ao pé da árvore pode ver urina escorrendo perto de si. Alguém acima não se conteve de medo!

A voz rouca e forte prosseguiu: “Não admito esse tipo de atitude na minha árvore” – a voz anciã vinha do topo, bem próximo da estrela – “Quando chega janeiro, vamos todos juntos para o armário escuro, nossos gorros natalinos se misturam a morcegos, serpentinas e cestos de ovos de páscoa...”

Papai Noel, do topo da árvore, com a sabedoria anciã liderava seu reino. O silêncio sepulcral voltou a tomar a sala, entretanto, os narizes chorões foram substituídos por olhos arregalados e reflexivos...

“Como se chama?” – Perguntou um dos duendes se virando para o zumbi.

“Como era, na caixa de Halloween?” – Outro duende arrependido tentava interagir.

“Meu nome é Regis... ah, era interessante! Lá, eu sou como o Papai Noel é por aqui... e... conversávamos sobre tudo, mas o que mais comentávamos era sobre a beleza que vocês trazem em dezembro. São muito admirados por lá... uma inspiração para o nosso trabalho em outubro...”

Papai Noel piscou para Regis, enquanto todos os duendes ficaram cabisbaixos. Notaram que só olhavam para as luzes de Natal! Não enxergavam a beleza das luzes alheias as suas realidades...

Graças a Regis, entenderam que quando chegasse janeiro, as quinquilharias de festas se misturariam outra vez no fundo do armário escuro...


D'AUMON




O Obituário




Nascido em Volta Redonda, no mesmo ano que a Constituição Brasileira, sob o signo de Escorpião, ele seguiu a luz no fim do túnel... Não pela primeira vez, hoje, morreu Hugo D., que conhecido através de vários nomes, conscientemente, confundiu a audiência. Esta que sempre se questionou da origem da sua segurança, sem compreender que é preciso morrer muitas vezes para tal...

Foi professor e escritor, mas acima de tudo, artista. A sua obra mais importante até o momento foi exposta durante seus 33 anos ininterruptamente, entretanto somente as pessoas mais atentas a conseguiram enxergar. Amante do contrassenso, buscou se expressar sob os auspícios de técnicas e estilos considerados vulgares ou populares, mesclando conceitos simbólicos elitistas para confundir quem o assistiu. Não para só construir, ele veio também pela destruição! Pois sobre a base do que já existiu, uma nova construção se torna instável.

Casou-se, não só com o marido! Criou, mas não foram apenas gatos. Morreu, mas continuará para sempre vivo. Virou águia no céu a enxergar um pouco melhor.

Que vá em paz! Orgulhoso de toda Arte que conseguiu fazer...

D'AUMON


Informação Privada

 

Composição da imagem: D'AUMON


Esse contato só é possível porque você morreu! Digo, provavelmente! É que também existe a possibilidade de ser uma EQM; ou um sonho lúcido; ou de um escritor sul-americano ter alcançado, através do contato com o TODO, as minhas ideias e, mesmo sem consciência disso, decidiu transmiti-las pra você!

Whatever, eu quero que você fique em paz, respire, diafragmaticamente, três vezes e entenda que a morte não é o fim. E se ela não é o fim, de alguma forma isso significa que você não sabe se está morto ou vivo... entende?

Não precisa ficar acanhado, vocês não conseguem lidar com facilidade com algo que não seja humano, não é mesmo? Relaxa e curte o momento. Nós somos da mesma energia, estamos aqui dentro desse mesmo propósito... É muito goodvibes nossa relação...

 Tô tão por fora desse papo de deus quanto você. A gente também é uma energia manifesta sem clareza de onde se oriunda. Imagina o que é isso! Vagamos por essa infinita highway, cercados de matéria escura e coisas explodindo, sem saber se estamos na direção certa.

“Vagamos” não é sobre você! Sossega. Falo de mim e dos outros iguais a mim, que tem em si outros semelhantes a vocês.

A gente não é VIP, honey. Estamos num mezanino do universo de onde é possível apreciar o show, mas não rola um meet and great com o todo Poderoso, ou Poderosa, ou Poderose!

De qualquer forma, o que precisa ficar claro é que Maia não é um nome presente na lista de credenciais pro backstage... Ah, eu divaguei por muito tempo, né? – Maia sou eu!

O negócio é o seguinte: vim contar duas pequenas historinhas pra você, pra exemplificar o que acontece com a humanidade. Vocês estão sempre se perguntando o que rola pras vidas de vocês serem tão complicadas como são. ..

Tudo começa em mim! Eu me entendi como um Ser igual você quando tinha sete anos. Foi quando decidi que criaria tudo isso que vocês enxergam, sentem, vivem... e o cara lá de cima decidiu que vocês poderiam ter essa coisa de livre arbítrio. Fui relutante a ideia, mas como não tenho acesso ao big boss, eu fico por aqui mesmo, fazendo meu trabalhinho e conjecturando as ações do chefe junta aos outros, lá na mesa do cafezinho.

Conclusão, precisei pensar em como usaria essa coisa de livre arbítrio no meu enredo. Tive uma ideia GÊ-NI-AL, tanto que o ser todo poderoso nunca interviu nisso.

Presta bem a atenção nisto: Na Terra há um rodízio de pessoas pra desentupir a privada por dia. Isso mesmo! A cada dia um número específico de acordo com a matemática do “foda-se! eu que escolho” são submetidas ao processo e suas privadas entopem. Elas precisam desentupir pros eventos continuarem seu processo natural...

Vamos entender o efeito catastrófico de pular a sua vez na hora de desentupir a privada. Temos essa pessoa X – Isso não traz o tom lúdico necessário – Essa é a Velma: uma garota brasileira de 27 anos, ela gosta de Legião Urbana, mas não interrompe o churrasco com o violão. Aliás, ela não sabe tocar violão. A Velma nasceu num subúrbio de classe média, em outras palavras, ela nasceu num ambiente pobre, não teve muito tempo pra estudar música. Ela se formou em T.I.

Velma veste muito a cor rosa, mas gosta mais de laranja. Entretanto, acredita que o laranja não combina com a sua pele. Ela não gosta de decotes e só usa tênis. Já viu cinquenta e quatro vezes o filme Club da Luta. E costuma ler no ônibus.

Velma tem um salário muito especial. Ela não precisaria de ônibus...

Por que a Velma anda de ônibus, Maia? A resposta é simples!

Velma desentupiu a privada sempre que foi a sua vez. Ela conhece a realidade dura. E por conhecer, sabe que existem milhares de pessoas espalhadas pela sua cidade com dificuldades de inúmeras naturezas. Assim, Velma percebeu que não precisa usar seu carro todo dia pra fazer um percurso em cinco minutos, quando na verdade, ela pode fazer de ônibus, mesmo que por dez minutos! Velma sabe os impactos ambientais e na mobilidade urbana que suas ações tem.

Parabéns pra Velma!

Todas as vezes que um pedaço de fezes saltou do fundo da privada em seu braço, Velma refletiu sobre o coletivo! O quanto é importante você limpar sua própria sujeira...

Agora, imagina você se Scooby pensasse assim. Seria perfeito! Mas Scooby é milionário. Nasceu numa família muito rica e não sabia que existia pobreza até os dezenove anos. Ele não gostava de arte, porque passava maior parte do seu tempo viajando... Scooby gostava de vestir roupas de grife. E não come queijo...

Quando chegou a vez de Scooby desentupir a sua privada, a coisa não rolou como um processo natural. Ele deixou de usar o seu banheiro particular por um dia, usando apenas o lavabo da mansão. Enquanto esperava por Fred, o jardineiro que da família, para desentipir sua privada! Assim, Scooby promoveu o Efeito Descarga!

O efeito descarga é quando você aperta um simples botão, ou puxa uma inocente cordinha e a água desce com seus excrementos pela tubulação. Um ato corriqueiro, para o qual você não desprende muito tempo de reflexão, mas que em algum momento desemboca no mar. Aí é o caos completo: chega coco, papel e muitos restos de comida; mas chega fio dental, plástico de toda sorte, óleo... é quando você percebe que uma quantidade pequena de óleo de uma dona de casa da zona norte do Rio de Janeiro, se junta em algum momento com a pequena quantidade de óleo de uma estudante de medicina, que mora numa quitinete no interior do estado. E o problema cresce...

Quando Fred chega em casa e reclama com sua família da desgraceira que é isso, Daphne, a sua filha mais velha, se revolta com a humanidade, gera em seu mais íntimo ser a vontade de explodir todo o planeta! Mas não é porque Daphne é má. Ela entende como é degradante o momento de desentupir uma privada mesmo sendo supostamente pago pra isso...

E mesmo não sendo a vez de Fred, ele foi obrigado a se ajoelhar e lidar com excrementos de terceiros, pra resolver um problema que não era o seu. Aqui, é a ruptura com o processo natural das coisas. Se Scooby aceitasse que era o seu lugar na fila pra desentupir a privada, Fred não reclamaria com a família sobre a bosta do Scooby, o que evitaria a explosão de ódio à humanidade em Daphne, quebrando todo um ciclo de horror...

Um ciclo sem fim! Daphne saiu aquele dia com muita vontade de lutar. Passou num posto de conveniência e decidiu comprar cigarros – mesmo que ela não fumasse – quando do banheiro do posto, Velma saiu com olhar de nojo, se encaminhou até o lado de Daphne e falou como um sussurro para a moça do caixa:

- O banheiro está entupido, não consegui nem usar...

Daphne, ainda com a explosão de ódio à humanidade em seu interior, teve seus sentidos ausentes. E toda a sua fúria saiu do coração e vibrou por seu corpo até o seu punho rígido. Essa energia ultrapassou a sua matéria e atingiu o olho esquerdo de Velma. A desenvolvedora de software caiu desacordada no chão, mas recobrara a consciência logo em seguida, ouvindo os gritos de Daphne:

- Larga de ser asquerosa, deixa de ser desumana! Você quer que a moça desentupa? Você sabe o quanto é horrível e degradante? – Antes de concluir o raciocínio, Daphne correu chorando em direção à porta e se foi.

Velma se levantou tonta e revoltada com a aparente injustiça cometida contra sua honra. Um homem a ajudou a se levantar, a carregou até a saída da loja de conveniência. No posto, ambos ficaram de pé, um de frente para o outro. O lusco-fusco criara uma silhueta romântica. O homem abriu uma cerveja importada e começou a beber, quando em um dos intervalos de suas bebericadas, atuadas com um charme forçado, ele disse:

- Essas pessoas são selvagens! A falta de educação nos leva a esses momentos de barbárie. – Ele pausou e mexeu no nariz tentando ser charmoso – Você já está melhor?

- Sim! Só queria poder ter revidado.

- Seja superior... isso é gente sem civilidade. Mas, me conta: O que rolou, afinal?

- Eu falei pra moça do caixa que a privada estava entupida... a garota me socou e me chamou de desumana...

- Nossa! Uma privada entupida? Que bobagem... por coisa pouca. Ontem mesmo, minha privada entupiu e, hoje mais cedo, o meu jardineiro foi, lá, e desentupiu rapidamente... – Velma estava tonta com toda a situação e não tinha paciência para um playboy. Ela se despediu e sua silhueta desapareceu no lusco-fusco do plano aberto descrito antes do diálogo. Enquanto Scooby colocou as outras garrafas de cervejas importadas em seu carro e seguiu para uma festa numa cobertura em Ipanema.

Fim!

Essas são as duas historinhas que te mostram como a vida poderia ser mais perfeita pra todo mundo. Entretanto, muitas pessoas como Scooby seguem pulando sua vez de desentupir a privada. O que nos traz a esse cenário caótico, em que por mais que remexamos nas estruturas que vocês mesmos criaram, não vemos possibilidade de organizar a coisa toda.

Esse é o segredo entre as Estrelas!

E se estiver mesmo morto, lembre-se de seguir a Luz, mas respeitando a ordem...

Beijos, Honey.

D'AUMON




O aniversário da covid-19



É possível olhar pro céu e enxergar a rachadura?

Deve ter alguém no mundo que consiga. Eu não a vejo com os olhos mas a percebo lá. É como o sabor do sangue contornando os dentes, a gente sente, mas não encontra a ferida.
A rachadura se expande em pequenos trincados, tomando todo o firmamento. Se você não a enxerga ou não a sente, a ilusão ainda pode ser superada, eu sugiro você olhar em volta, onde todas as coisas mostram como a rachadura cresceu.
Todo mundo tá morrendo de fome, de guerra, de peste... se qnd a gente tentava superar, ainda assim doía, agora, que desistimos, é como o fio de cabelo que prendeu no pente, dói num ponto da cabeça, mas a gente não sabe definir bem onde é. A gente disfarça o choro, porque parece exagero, a gente disfarça a dor, porque precisamos parecer fortes, a gente descabela o couro cabeludo, alucinados, buscando o ponto de onde o fio se soltou. Alguém diz "é só um fio". Mas a dor não deixa dúvida, perdemos o fio...
Tá doendo de dentro pra fora, um dolorido que faz ano, é a espícula da unha encravada cortando a pele: só se sente a dor quando aperta. Mas por dentro há infecção, muita infecção! E carne morta. Quem já teve sabe que dá pra sentir o cheiro forte da ferida. Não adianta negar o problema, a unha continua crescendo, rasgando, o fedor exala, a carne vai morrendo...
Ou arranca a espícula ou perde o dedo, o pé, ou até a vida... e a gente sabe o quanto uma vida é valiosa. Mesmo assim vai partindo todo dia mais de mil... 260 Mil em um ano... era possível arrancar a unha, era possível se preocupar com aquele fio, era possível ir ao dentista encontrar a ferida, a rachadura no céu era perceptível, bastava usar um bem valioso a vida humana: Amor.

Sinto muito!

D'AUMON