Entre as costelas frágeis de tom esverdeado, rodeadas por carne putrefata e liquefeita, nascia uma flor. Ainda não era possível ver as pétalas. E pra quem não entende de flores, como eu não entendia, nem mesmo o broto era reconhecível. As frágeis folhas esverdeadas traziam a delicadeza necessária para o corpo em decomposição. Era como o pé de feijão no algodão: frágil e pertencia a alguém. Nesse caso, pertencia ao corpo do gato que se desfazia.
Imediatamente, coloquei meu nariz afundado na junta entre o braço e o antebraço. Um reflexo instintivo me fez semicerrar os olhos como se o cheiro, também, fosse invadi-los. Olhei por alguns instantes aquela cena. Admirei a arte da natureza, em transformar um gato numa flor. Meus olhos sobre o corpo permitiram os instantes se liquefazerem, tal como a carne do felino, e deixarem a sensação de tempo similar ao de observar uma flor desabrochando. Um silêncio interno se estabeleceu. Comecei a me afastar, precisava voltar para casa, que era onde eu trabalhava.
Comecei a sair da imersão física e psicológica que havia mergulhado. Às vezes, eu entrava nesse estado, era como se outra parte de mim me observasse existindo, como uma águia observando do alto do céu os movimentos de sua presa, a presa agia em sua natureza, não tinha capacidade de saber que estava sob os olhos atentos de um algoz.
Caminhava a passos largos pela grama verde da clareira não tão distante da cidade, pois mesmo rodeado pelas arvores, eu conseguia ouvir ao longe a avenida sussurrando o movimento urbano. O sol brilhava forte, mas eu estava de jaqueta. Os passos foram acelerando, enquanto eu mantinha meu nariz afundado pelo abraço bruto que o protegera do mau cheiro. Até chegar em uma zona confortável, onde o fedor já não me acompanhava. Deixei o braço cair pela lateral do meu corpo, revelando as lagrimas do choro convulsivo. Os passos largos foram substituídos por passos lentos, coloquei as mãos sobre os cabelos os ajeitando para trás, ao mesmo tempo que direcionava o rosto para cima, como se quisesse prender as lágrimas nos olhos... a coleira com a placa redonda gravada Albedo, não deixou dúvida! Finalmente, eu encontrara meu gato.
Eu vinha de uma sucessão de fatos ruins. Um dia acordei, olhei em volta e vi que a minha vida parecia vazia. Não era sobre amor romântico. Era sobre mim. Mas não a incapacidade de me encontrar em paz por dentro. E, sim, a incapacidade de entender as pessoas ao meu redor. Havia terminado inúmeros relacionamentos românticos consecutivamente. A cada vez que eu me sentava, à mesa, para conversar, via os olhos vazios das pessoas com quem me relacionava. Via esses olhos buscarem um sentido para si mesmas. E percebia, em algum momento da nossa relação, que a parte que amava de cada uma daquelas pessoas, era eu mesmo! Isso pode soar bonito, mas não é. Eu amava uma projeção inconsciente e inconsistente que eu criara para satisfazer a minha própria noção de realidade. Os olhos dessas pessoas não eram vazios. Eu era vazio! Eu enxergava o vazio abissal do fundo dos seus olhos, porque elas já não construíam minha personalidade como eu queria. E o que mexia comigo, era o fato de perceber, que os vazios que eu via e eram meus, contraditoriamente, também eram delas. Porque ao primeiro sinal da minha mudança, a minha encenação já não complementava a encenação alheia. E, portanto, como eu não sabia do que agora sei, chegava ao fim.
Eu sofria com o fim, mas não pela falta de cada uma dessas pessoas. Eu sofria com o vazio que ficava naquilo que eu havia definido que eu seria: O namorado de alguém.
Quando estava quase saindo do bosque, com esses pensamentos, refletindo sobre a vida que levara até ali, vi a alguns metros um vendedor de picolé. Manchado pela luz do sol que vazava entre as folhas da árvore frondosa, sob a qual ele estava. O boné branco, um jaleco branco, tal como uma alma quarada num quintal de alguém. Debaixo do sol quente, já perto das ruas da cidade, o calor até poderia ser responsável por uma miragem. O homem parecia um anjo, a roupa branca reluzia o sol e o deixava disforme. E como um anjo, ele ofereceu compaixão:
- Picolé, meu nobre? – Eu não queria, mas senti que soaria estranho. Eu pensava que ser alguém que se nega a um pedido indireto e gentil, não fazia parte de quem eu era. Por isso encenei:
- Claro que sim! Qual o nome do senhor?
- Michel... – Ele abriu o carrinho de picolé, a fumaça gelada flutuava, no entrono da abertura, e causava uma sensação de paz e frescor. Então o anjo do gelo continuou – Três por dez. Vamos aproveitar?
- Poxa, Michel. Hoje, ficarei te devendo essa, vou querer só um mesmo... – Depois de tantos relacionamentos terminados pela minha incapacidade de entender a complexidade humana, eu não tinha para quem levar.
- Na próxima, o senhor leva. – O homem sorriu com dentes brancos. Sorriso misericordioso. Era um anjo, mesmo que tenha precisado receber pelo picolé. Talvez, fosse tempo de trocar o óleo das asas.
Segui caminhando pelo restante da pequena estrada de chão batido, que me levaria em direção à agitação escandalosa da cidade. Nessa caminhada, as lagrimas por Albedo já haviam evaporado, mesmo assim, a dor seguia no fundo do peito. Eu mordi meu primeiro pedaço de picolé, era de coco, o picolé reluzia com seu branco úmido sob o sol radiante. E me lembrei de quando adotei Albedo.
Por muito tempo eu fui “o filho que deu errado”, mesmo sendo o único com formação superior. De um seio familiar rigoroso, não nasci só em carne, eles deram a luz a um ego esfarelado. A rigidez me deixou confuso com o caminho. Então, ao longo da primeira fase adulta, optei por tentar ser as coisas: fui o universitário descolado; o baladeiro; o divertido; o engraçado; só não fui eu mesmo.
Minha graduação em T.I. não era o que eu queria, pra ser sincero, nunca soube o que eu queria. Talvez, se não nascesse subjugado a rigidez familiar, teria descoberto ao longo da vida que queria mesmo era fazer T.I. Mas nunca saberemos e, agora, não saber me faz bem.
Não viajei para os lugares que desejei por um tempo. As viagens eram sempre por roteiro de tendência da classe média. Cada viagem feita era no intuito de construir uma personalidade convergente com aquilo que eu, passivamente, fora aceitando ao longo da vida. Não vou dizer que não me diverti. Entretanto, muitas coisas que pretendiam ser memoráveis, soam como intervalos longos até eu me encontrar. Uma parte fria da minha história, congelada num lugar onde se perdeu o seu sentido, um lugar que acolheria o picolé de coco, não só pelo frio interno que ambos provocam. E, sim, porque pela lógica, certamente, seria esquecido na linha da minha história...
Então, aos 32 anos, eu morava há quilômetros de distância da cidade da minha família. Eu não precisava. Era um trabalhador de home office. Por outro lado, eu precisava, sim. Era um trabalhador de mim mesmo! Dessa forma, precisei amá-los à distância. Com segurança! Também, já não me relacionava, romanticamente, com ninguém. Já havia mais de ano! Estava, para quem me via de fora, estéril. Enquanto pra aquela águia que me observava de dentro, eu começava a brotar, essa águia era o meu algodão, ou talvez a criança que me semeara. Ela era o mistério, ou talvez, o nosso amor o fosse...
Eu vivia sozinho nessa metrópole. Eu achava que sozinho. Na verdade, vivia com essa águia de dentro, que me observava com delicadeza, como quando a gente observa uma flor indecifrável nascendo entre as costelas de um gato putrefato: uma observação gentil e misericordiosa, que enxerga beleza em meio ao mau cheiro.
Aos 32, saí de casa para ir a esse bosque de caminho frondoso. Estava de folga e precisava ter contato com a natureza. Era uma vontade imensa dentro do peito de sentir o cheiro úmido das árvores num dia frio. Tal como se a tal águia me convidasse, ou melhor, como se me conduzisse ao passeio.
O caminho frondoso desse lugar, sempre levava à clareira. O frio denso tomava toda a metrópole e, portanto, criava orvalhos delicados no verde da mata resistente. Eu respirava fundo, não pelo ar em si, mas pela umidade gélida que aquele dia tinha. Numa das respirações profundas, num reflexo inconsciente, olhei para baixo e uma pequena caixa de sapato estava aos pés de uma imensa árvore. Forrada ao fundo, com tecidos velhos, e sobre os tecidos dormia, profundamente, a delicada criatura branca. Com aparência de ter apenas um mês, lá estava ele, Albedo, ainda sem ser batizado, dormia sozinho aninhado pelos tecidos velhos. Movimentava a boca, intermitentemente, como se buscasse as mamas de sua mãe recheadas de leite. Tomei a caixa em minhas mãos e aproximei do meu rosto a criatura, abençoada pela beleza natural com a qual viera. Foi quando pude ouvir a respiração profunda de quem se sente acolhido pelo amor. No frio daquela manhã, fechei a caixa e a levei comigo. A inocência selvagem de um filhote o deixava vulnerável, Albedo sequer abriu os olhos! Foi em seu sono profundo e inocente dentro da caixinha aconchegante. Carregado por um homem, até então, solitário...
Indo pra casa, comprei tudo que era necessário para os primeiros dias com Albedo. Lá, assim que despertou, olhou para o meu rosto enquanto bocejava. Não miou! Nossos olhos se fixaram num silêncio sagrado. Era a beleza de um amor puro eclodindo, uma simbiose perfeita!
Foram os melhores dez anos da minha vida. Com Albedo, aprendi que cuidar, também, passa por colocar aquilo que se ama a prova, para que possa depois viver em maior plenitude. Aprendi isso, quando o levei para a castração e depois cuidei dele no pós-operatório, tal como a criança que semeia o feijão no algodão. Albedo me ensinou a priorizar as relações mesmo que, aparentemente, elas não tenham moeda de troca palpável. Passei a ir cada vez menos ver minha família, porque não queria deixa-lo só, ou com uma pessoa desconhecida. Eu trabalhava com Albedo deitado sobre meu braço. Dormia dividindo travesseiro com Albedo. Tomava meu café com ele.
Eu vivia em uma casa confortável. Um quintal grande, com um bom espaço verde. Deixava Albedo livre nessa área. E o observava de longe, da varanda. Não havia medo da sua fuga, porque os muros tinham instalações de profissionais com rolos anti-fuga de gatos. Passei a observar Albedo, tal como a águia interna me observava. Foram anos de falsa solidão!
Até que Albedo desenvolveu insuficiência renal. Passei por um longo período de autoflagelo, mesmo com o veterinário esclarecendo que os bons cuidados não influenciavam nessa doença, pois era muito comum em gatos com o avançar da idade. Ele foi piorando rapidamente. O caso de Albedo era muito sério. Embora, eu ainda tivesse uma pequena esperança. Entretanto, uma descoberta me aconteceu.
Albedo estivera por todos esses anos ao meu lado, pelo prazer da minha companhia. Pois mesmo com tudo cercado, o meu branco conseguiu escapar. Ainda que nunca soubera como! Passei a deixar cartazes de procura oferecendo resgate. Fiz uma rede de comunicação com o veterinário, as pessoas da padaria que eu frequentava, as pessoas da academia, da barbearia... semanas se passaram, até que um café, extremamente doce, que eu tomava, desceu amargo pela garganta, quando vi a moça do caixa da padaria chegar para o trabalho e entrar bufando de cansaço.
- Eu vi! Eu vi! – Ela gritava, parou a minha frente e prosseguiu – O senhor não vai gostar da notícia, mas eu vi... – A moça começou a gaguejar – Eu atravesso o bosque, diariamente, pra vir trabalhar, mas, hoje, tomei um caminho diferente, lá dentro, pois queria caminhar mais e pensar na vida. E encontrei seu gato...
- Onde? Como ele tá? – Gritei com um sorriso, mesmo que já não houvesse esperança real. Entretanto, enquanto virava o café, ouvi a resposta.
- Ele já esta em putrefação avançada, numa imensa árvore que fica na região da clareira.
Ela tentou me acalmar. O rapaz que servia, também tentou. Eles eram de alguma forma meus amigos desde que cheguei à metrópole. Saí da padaria com a vista um pouco desfocada, o sol raiava forte e mesmo assim eu usava jaqueta jeans. Caminhei inconsciente em direção ao bosque. Os meus amigos da padaria me pediram pra deixar isso de lado. Mas eu precisava de um fim pra essa história com a nobre criatura branca, que mudara minha vida. Eu sentia a necessidade de vê-lo sem vida, para compreender melhor a sua partida. Queria enterrá-lo!
Foi quando vi, as folhas delicadas surgirem em meio as costelas do corpo de Albedo. Os pelos brancos flutuando na poça gelatinosa de carne putrefata. O sol quente quase efervescendo a pasta liquefeita tomada por vermes. O brilho reluzente da placa circular, com o seu nome, refletindo o sol com violência. Tudo sob a mesma árvore frondosa onde o encontrei. As cenas da pequena criatura vivendo a glória da inocência selvagem de um sono profundo, como um flash, surgiu em minha mente. Cada sorriso que dei se uniu numa profusão de felicidade que nunca havia sentido antes. Foi quando veio o choro. Um choro convulsivo com a cara afundada numa jaqueta jeans. Um choro que misturava a alegria da lembrança e a dor severa do fim. A águia que observava, já sabia o que eu estava prestes a reconhecer... já não havia a necessidade de enterrá-lo, quando a natureza já fizera um túmulo perfeito: a clareira. E entregara ao meu Albedo a flor perfeita, aquela que nascia no seu peito. Não importava a forma destruída, as vísceras expostas, os pelos sem brilho... aquela era uma cena linda do fim, mesmo que doesse. Havia a beleza oculta na transformação. Seu corpo nutria a flor e a árvore, que um dia o abrigou sob si. E no meu peito, Albedo se fazia! Cada sensação e sentimento ao seu lado, criara em mim um homem diferente de quando o conheci, há dez anos.
Albedo no peito, Michel brilhando ao sol, um picolé de coco reluzindo e o fim da pequena estrada do bosque já revelava o movimento da cidade. O calor insuportável parecia piorar sob a jaqueta jeans, mas o picolé branco não deixava em dúvida que o dia estava quente, quando começou a derreter mais rápido do que eu podia consumi-lo. Já na calçada da avenida, em frente a entrada do bosque, parei para tomar o picolé que escorria, na intenção de evitar me sujar por inteiro. Ergui o palito para o alto e com isso, também a cabeça, pretendia tomar o doce gelado que se liquefazia, o sol radiante me forçou a fechar os olhos abruptamente. E num silêncio interno, em meio a um grito externo de alguém ao meu redor, meu corpo alcançou o chão. Com o rosto colado ao concreto, eu ouvia, ao longe, os gritos das pessoas. Havia o som baixo e de um rádio com interferência, tocando “Escrito nas Estrelas”, além do som de uma roda de carro girando sem tração. Mas não tinha dor!
- Meu deus! – Michel deixou seu carrinho de picolé tombar no chão. Sua forma imprecisa, pela prevalência de branco em seu visual que refletia o brilho do sol. O homem vinha em minha direção com as mãos na cabeça – Ele tava na calçada! Como isso foi acontecer, meu Deus?!
- Minha Nossa Senhora do Céu! – Era a voz de uma senhora já envelhecida – Ave Maria! Alguém liga pra ambulância.
Os gritos e interjeições foram ficando cada vez mais longe. A intermitência das piscadas, cada vez mais lentas e longas. Michel se abaixou perto de mim, eu só conseguia ouvir sons sem sentido. E cada vez mais baixo. Entretanto, as mãos brutas do homem que chorava por um desconhecido, pousou com delicadeza sobre a minha face. Como quando uma criança toca a folha delicada de um pequeno broto de feijão semeado no algodão. E onde já não havia dor, houve consolo!
Da porta do bosque, eu via as pessoas agora mexerem no corpo. Um corpo frágil. Um corpo que há pouco era meu. Das costelas do corpo, um carro, parcialmente, erguido surgia. Perto da mão direita o picolé terminava de se desfazer, formando uma poça branca que reluzia o sol. Desconhecidos choravam a minha morte! Não tive vontade de ver minha família em outra cidade. Não pensei em chamar por ajuda. Olhei pro bosque e entrei.
Os pelos cintilantes de novo. E a mesma expressão de fofura, quando me via. As patas charmosas sustentando o corpo gordo. O miado inconfundível da sua personalidade doce e sociável. Não tinha dúvidas. Estava morto e num reencontro com Albedo.
E com certo constrangimento, confesso que não consigo mensurar o tempo que fiquei naquele bosque, passeando pelo seu labirinto de árvores, confundindo minha compreensão de onde era a entrada e onde era a saída. Embora em profundo sentimento com Albedo. Relembrando nossos momentos juntos. Cada pessoa com quem me relacionei e que se sentiu cativada por ele também...
Até que percebi: Albedo era só um momento. Albedo era só uma extensão do que eu fui. Pois eu também era só um momento. A águia que me observava , essa sim, era o que sou. Foi quando as cortinas se fecharam, a encenação acabou! Era liberdade! Um Mistério. Era amor.
Albedo aceitou o sono profundo, quando abandonado filhote. Numa inocência selvagem! E aceitou o fim de peito aberto. Quando fugiu para morrer na natureza em sua solitude. Peito tão aberto que brotou uma flor. E diferente do que você possa pensar, o carro sobre o meu corpo foi só a primeira morte. Estou nessas linhas registrando o meu fim e, paradoxalmente, apagando aquela versão. Albedo seguiu em meu peito e eu no peito da águia, que me observava amá-lo sem interesse. Tal como uma mãe observa sua criança de olhos reluzentes vigiar o feijão brotando no algodão...
- D'AUMON




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